Desmatamento ilegal

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Fazendeiros e extrativistas ilegais descobrem uma nova forma de desmatar a Amazônia sem serem captados pelas imagens de satélites, mesmo que a floresta tenha amparo da tecnologia e o melhor sistema de monitoramento da América Latina.

 

Claudio Seidji Kokubo

“O desmatamento é feito em quatro etapas”, explica Ariovaldo Umberlino, professor, pesquisador e geógrafo formado pela Universidade de São Paulo. “Primeiro, retira-se as madeiras de lei, de boa qualidade. Depois, uma parte da vegetação e assim sucessivamente até virar uma vegetação rala”, continua o professor. O satélite só consegue captar a etapa final, quando visivelmente a vegetação está mais baixa. “É a chamada extração seletiva”, conclui Umberlino, em tom de frustração. Ele explica que antigamente eram feitas derrubadas diretas, ou seja, sem nenhum tipo de estratégia a floresta era destruída de forma brusca e avassaladora. No entanto, depois que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) iniciou um projeto de monitoramento mais acirrado, os desmatadores ilegais tiveram de criar novas estratégias para derrubar as árvores sem serem captados pelas imagens de satélite. O Inpe conta com dois programas de monitoramento via satélite: o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes) e o sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter). O Prodes é indicado para cálculo de taxas anuais de desmatamento, enquanto o Deter divulga suas medições diariamente.

Outra maneira que os destruidores encontraram para derrubar a floresta sem serem notados pelo monitoramento é agir no período de chuvas, pois dessa forma as imagens ficam maquiadas pela presença de nuvens, dificultando a visibilidade dos fiscais. Umberlino explica que esse é o motivo, de uns tempos para cá, de o maior índice de desmatamento ter sido registrado em períodos de precipitação sobre a floresta. “Há uma tendência à diminuição, pois já foi maior, mas isso não significa que devemos relaxar, é preciso na verdade lutar cada vez mais. 17% da Amazônia já foi devastada, o número não é tão assustador, mas se fizermos uma equação de área desmatada em relação ao tempo, a situação fica realmente preocupante”, alerta o professor.

Se essa triste realidade perdurar, poderemos ter graves problemas ambientais no futuro. É o que demonstra o físico e professor do Instituto de Física também da USP, Paulo Artaxo. Ele explica que a Amazônia é o maior reservatório de carbono do mundo. Ela contém a maior bacia hidrográfica, é morada de diversos animais, alguns ainda nem descobertos pela ciência, e de diversas populações indígenas, algumas das quais ainda não tiveram contato com o “não-índio”, termo ensinado pelo professor Umberlino. É, portanto, um lugar único, onde a magia, folclore, cultura são extremamente vivos.

Infelizmente, as notícias relacionadas à maior floresta equatorial do planeta estão sempre ligadas a devastação, contaminação das águas, extinção da biodiversidade, disputa de terras e não é à toa que há essa sequência. O povo brasileiro olha com distanciamento o maior tesouro natural do mundo. De acordo com o o Greenpeace, 49% da Amazônia estão dentro do território nacional, por isso é dever dos brasileiros cuidá-la e mantê-la.

A ciência ainda busca por respostas, sabe-se muito pouco sobre a região Amazônica do ponto de vista científico, sua extinção poderia trazer enormes problemas climáticos para o mundo e os cientistas ainda não sabem como os ecossistemas tropicais responderiam a essas mudanças. Paulo Artaxo diz que essa é uma questão-chave para criar um quadro mais completo das mudanças climáticas globais.
É uma região extremamente difícil de entender, em todos os aspectos, no entanto não é nada difícil se encantar com a sua exuberância. As chuvas do sul brasileiro imploram para manter o verde úmido amazônico, o mundo levanta seus protestos contra as serras elétricas, a Amazônia pede ajuda e precisamos atender urgentemente.

Ariovaldo Umberlino e Paulo Artaxo foram palestrantes convidados para participarem do projeto “Repórter do Futuro”, realizado pela organização Oboré em parceria com a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e o IEA/USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo), como curso de complementação para jovens comunicadores. Outros quatro especialistas farão suas palestras, transmitidas em tempo real pela internet, nos próximos sabados.

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